Se você cresceu lendo O Cavaleiro sem Cabeça, Excalibur, A Espada na Pedra, Mulan ou qualquer outra lenda arturiana, você provavelmente guardou uma versão encantada e meio inocente da história: Merlin ancião, espada na pedra, mesa redonda, Lancelote e Genebra… Bernard Cornwell demoliu tudo isso. E o que ficou é ainda mais poderoso no seu box As Crônicas de Artur.
Publicado originalmente entre 1995 e 1997 em inglês, As Crônicas de Artur (original: The Warlord Chronicles) é a trilogia em que Cornwell, historiador e romancista militar, pega a lenda arturiana e a submete ao bisturi da arqueologia histórica séria. O resultado: três romances onde Arthur nunca é coroado rei, Merlin é uma figura gatuna e lasciva, e Lancelote é tudo menos o herói que conhecemos.

Box As crônicas de Artur
Artur, ao longo de séculos, transformou-se no maior de todos os heróis da literatura e num dos personagens míticos mais presentes em nosso imaginário.
Quem é Bernard Cornwell?
Para entrar na trilogia, vale conhecer o autor, porque ele está por trás de algumas das ficções históricas mais vendidas do mundo.

Bernard Cornwell, nascido em 31 de janeiro de 1944 em Londres, é um escritor anglo-americano. Foi adotado quando criança, cresceu na Inglaterra em famílias adotivas, e ingressou no exército. Serviu no exército britânico antes de emigrar para os Estados Unidos, onde começou a escrever romances de aventura histórica.
Cornwell não tem diploma universitário em história, e isso, de certo modo, o libertou para fazer arqueologia imaginativa sem comprometer-se com cânones acadêmicos. Sua abordagem é:
- Pesquisar fontes primárias (textos contemporâneos);
- Ler muito sobre tecnologia militar da época;
- Visitar pessoalmente os locais;
- Imaginar a vida como era de verdade: suja, brutal, política.

Principais séries do autor
| Série | Foco | Editoras no Brasil |
|---|---|---|
| Saxon Stories / Crônicas do Sarum | Reino de Wessex, Alfredo, o Grande e ο αγγλοσαξονικ | Ed. Record |
| The Warlord Chronicles / Crônicas de Artur | Arturiana desmistificada | Ed. Record, box de colecionador |
| Sharpe Series | Rifleman Richard Sharpe, guerras napoleônicas | Ed. Record |
| Saxon Stories (a partir de O Último Reino) | Wessex vs guerras dinamarquesas | Ed. Record |
Do que se trata o box As Crônicas de Artur?

O box trata-se de uma retomada histórica/correlativa da lenda arturiana, ambientada na Grã-Bretanha do século V–VI, no período logo após a retirada romana. É o que historiadores denominam “Dark Ages” (Idade das Trevas), embora Cornwell deixe claro logo na abertura que nada é escuridão pura.
A premissa
A lenda arturiana diz que Artur foi um rei que reuniu a Grã-Bretanha pós-romana, fundou o reino de Camelot, e lutou batallas épicas contra invasores saxões, enquanto carregava Excalibur. Cornwell rejeita quase tudo isso.
O que muda na visão de Cornwell
- Artur nunca foi coroado. Foi um líder militar brilhante, filho bastardo do rei Uther, e o dux bellorum (chefe de guerra) da Britânia contra os saxões.
- Merlin não é o ancião virtuoso de barbas brancas, é um druida lascivo, astuto, manipulador, devoto dos deuses antigos, que coalha vantagens políticas em cima de um sistema de magia ambígua.
- Lancelote não é o cavaleiro virtuoso, mas um arrogante, covarde e auto interessado, cuja reputação heroica foi construída por bardos.
- Ginebra torna-se Ceinwyn, uma princesa pagã que rejeita Artur.
- Cristianismo e Druidismo duelam pelo destino espiritual da ilha.
- Sagramor não é o cavaleiro húngaro, é um veterano romano da Numídia (norte da África).
Como a história é narrada
O narrador é Derfel Cadarn, personagem em primeira pessoa, baseado em São Derfel Goodwin (santo medieval menos conhecido) e em Bedivere (um dos cavaleiros originais).
Derfel é:
- Filho de saxões convertidos pelo druida Merlin (substituiu o papel de Merlin pai);
- Soldado desde criança;
- Companheiro leal de Artur por décadas;
- Portador da espada Excalibur (de origem divina);
- Quem vive o ciclo inteiro da Britânia, do caos ao apogeu e à queda.
A narrativa de Derfel é o que dá humanidade emocional à trilogia. É livro de guerra, intriga política, amor e traição, narrado por um velho que vai morrer e quer contar a verdade.
Você vai amar este livro se:
- Já leu A Guerra dos Tronos e quer algo com a mesma vibração política, mas com Artur no lugar de Starks e Lannisters;
- É fã de história britânica medieval/medieval tardia/saxão;
- Já assistiu a The Winter King (2023) na televisão e quer entender o que está por trás.
Conheça também o livro O Poder e os Tronos!
FAQ: Perguntas Frequentes
Em que ordem devo ler os livros do box As Crônicas de Artur?
A trilogia deve ser lida na ordem: 1. O Rei do Inverno, 2. Inimigo de Deus, 3. Excalibur. Não há sequência alternativa. São três partes de uma narrativa linear.
Tem uma leitura pesada?
Leitura densa. Cornwell não é fácil como um Patrick Rothfuss. A prosa é limpa, mas as cenas de batalha têm detalhes técnicos (formações, armas, táticas). Ajuda ter alguma familiaridade com história militar britânica.
“É leitura acadêmica?”
Não. É romance, com pesquisa por trás. Não substitui um manual de história. Para Anos 410-700 dC na Britânia, vale ler historiadores como Guy Halsall, John Morris, ou Barry Cunliffe.
Posso ler The Winter King (TV) antes do livro?
Pode, mas o livro tem muito mais do que a TV. O livro é preferred. Se assistir antes, espere adaptação parcial, a TV segue o espírito do livro, mas não cobre todas as linhas narrativas.
- Por SarahSierszyn from Chatham, MA, USA – DSC_0051, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=45433787 ↩︎

